O vinho da talha é feito em Vila de Frades como no tempo dos romanos e assim é que é bom

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Voltar 15fev2020

O vinho da talha é feito em Vila de Frades como no tempo dos romanos e assim é que é bom

 

 

"Já o meu avô e o meu pai faziam vinho da talha. E decidi investir um pouco nisto. Fazemos por ano 25 ou 30 talhas", diz António Honrado, que inovou ao comerciar também em garrafas, não sendo caso único. Comercializado sob o nome de Honrado e em garrafas pintadas de cor de barro, este vinho da talha feito em Vila de Frades está assim disponível em duas versões, com preços que rondam 14,5 e 19 euros. 



 

Quem não souber que Vila de Frades é a capital do vinho da talha até poderá pensar que são ânforas as formas desenhadas nas portas do edifício inspirado nas ruínas romanas de Cucufate e que, terminada a renovação, servirá para promover a tradição vínica da terra. "São talhas, claro, cuja forma serve na perfeição para a fermentação, enquanto as ânforas são melhores para transportar. Mas devemos aos romanos ambas", explica Rui Raposo, presidente da Câmara da Vidigueira, concelho afamado pelo vinhos, da talha mas não só. "Também produzimos bom vinho do outro", do que fermenta não em barro mas sim em barris de madeira, acrescenta o autarca que me serve de cicerone nesta reportagem em Vila de Frades, aldeia mesmo junto à sede do concelho, essa Vidigueira da qual Vasco da Gama foi conde.

 

Desde o nosso encontro, ao início da tarde, às portas da sede da junta de freguesia, que Rui Raposo não para de cumprimentar pessoas. São os cinco reformados que partilham um banco de jardim, todos de boina que o sol no Baixo Alentejo é quente mesmo no inverno, é a D. Mariana (o autarca parece saber o nome de toda a gente), é a sogra, D. Esperança, que lhe pergunta pela menina, a neta Francisca que nesta tarde está com um pouco de febre. "Tem 4 anos. E a caminho vêm gémeos", diz, em tom de pai orgulhoso o autarca comunista, de 41 anos, cujos pais são da Vidigueira, mas que, entretanto, comprou casa em Vila de Frades, terra da mulher.

 

Rui Raposo Rui Raposo, presidente da Câmara da Vidigueira eleito pela CDU, encabeça a candidatura do vinho da talha a património pela UNESCO. Aqui, junto a talhas da adega-restaurante O País das Uvas. 

 

Rui Raposo, que vai no primeiro mandato, é agora o grande promotor da candidatura do vinho da talha a património da humanidade. "Somos 20 municípios e sete entidades envolvidos e há muito entusiasmo, mas temos de preparar bem toda a documentação se quisermos ter sucesso quando formos à UNESCO", nota, admitindo que o êxito do cante alentejano o inspira e incentiva. Para já, neste ano, deverá finalmente ser inaugurado o Centro de Interpretativo do Vinho da Talha, instalado na antiga Casa dos Almeidas reabilitada, a tal que tem portas com o desenho de talhas e arcos a imitar a arquitetura de Cucufate, um legado do Império Romano, tal como o é a própria técnica de produção do vinho.

 

Conto ao presidente da câmara que foi graças a uma reportagem com um estudante arménio que está a fazer uma tese de doutoramento sobre o vinho da talha que descobri a candidatura à UNESCO. E recordamos ambos que esta reportagem está combinada há um ano, quando nos conhecemos aqui em Vila de Frades durante o concerto de abertura do festival Terras sem Sombra, que percorre todo o Alentejo e junta música, património e biodiversidade. Em 2019, a lindíssima Igreja de São Cucufate acolheu um coro afro-americano vindo da Geórgia, neste ano foi a vez de um grupo checo de canto gregoriano, igualmente no concerto de abertura.

 

"Um arménio inspirado pelo vinho da talha alentejano" foi o título do artigo sobre Mkrtich Harutyunyan, que está em Lisboa, no Instituto Superior de Agronomia, a fazer um doutoramento sobre uma das mais antigas tradições vinícolas do mundo, que se chama karas na sua Arménia natal e vinho da talha em Portugal. Não por acaso, estamos a falar de dois países cujos territórios se situam no que foram os extremos oriental e ocidental do Império Romano, um espaço gigantesco que graças à Pax Romana podia partilhar tradições e comerciar entre Europa do Sul, Ásia Ocidental e Norte de África.

 

No país das uvas

"Há historiadores que apontam Cucufate como a mais antiga adega da Península Ibérica", afirma António Honrado, produtor de vinho da talha. A sua adega-restaurante, não por acaso batizada de O País das Uvas (título de um livro de Fialho de Almeida, filho da terra), é ponto de passagem obrigatória para este périplo por Vila de Frades, capital do vinho da talha. Já prestigiado pela gastronomia alentejana da ementa, dos espargos com ovos ao ensopado de borrego, o restaurante beneficia agora de uma adega, anexo que, para surpresa geral, quando se fizeram obras revelou uma antiga estrutura em arcos que o proprietário preservou. O ar antigo, com referências uma vez mais a Cucufate, até originou um nome em latim. "Cella Vinaria Antiqua", pronuncia com gosto António Honrado.

 

Antonio Honrado António Honrado aponta para a dorna na sua Cella Vinaria Antigua

 

Hoje é possível fazer uma prova de vinhos na Cella Vinaria Antiqua seguida de almoço. E assim, não só se promove o vinho da talha como também cresce o turismo na vila. "Um dia de grande importância, em que Vila de Frades recebe muita gente de fora é o 11 de novembro, Dia de São Martinho. É a data tradicional de abertura das talhas e da respetiva prova", salienta Rui Raposo. Também há as Festas Báquicas, no início de dezembro. Antes da chegada de António Honrado, o autarca tinha já feito uma pequena explicação do espaço, nomeadamente do inclinado do piso em direção ao centro e do curioso quadrado mesmo no meio. Rui Raposo volta a insistir que não é especialista, mas percebe-se que com a candidatura à UNESCO fez questão de estar o mais bem informado possível. O dono, depois de feitos os cumprimentos, aproveita para explicar o resto, nomeadamente esse quadrado que na realidade é uma dorna, para onde escorre o vinho quando uma talha transborda ou, pior, racha. Também existe ali um poço e um pequeno recinto para pisar a uva, uma técnica ainda utilizada. Para facilitar o entendimento dos visitantes, um vídeo de poucos minutos explica o processo todo, da vinha ao jarro e ao copo.

 

"Já o meu avô e o meu pai faziam vinho da talha. E decidi investir um pouco nisto. Fazemos por ano 25 ou 30 talhas", diz António Honrado, que inovou ao comerciar também em garrafas, não sendo caso único. Comercializado sob o nome de Honrado e em garrafas pintadas de cor de barro, este vinho da talha feito em Vila de Frades está assim disponível em duas versões, com preços que rondam 14,5 e 19 euros.

 

Não é fácil produzir em grande escala vinho da talha, devido aos custos comparado com os outros vinhos. Aliás, talvez nem seja possível, se se quiser respeitar a tradição tal qual foi transmitida de geração em geração desde esse tempo em que Portugal ainda não existia como país, e em que o Alentejo pertencia à província romana da Lusitânia, com capital em Emerita Augusta, hoje a espanhola Mérida.

 

Rodeado por grandes talhas, António Honrado lá vai explicando a arte: primeiro que tudo as uvas, colhidas em setembro, época da vindima. Aqui crescem castas brancas como a Antão Vaz e a Rabo de Ovelha e tintas como a Tinta Grossa e a Trincadeira. Pisadas, ripadas (esmagadas à mão) ou colocadas num moinho, as uvas só seguem para as talhas depois de estas terem sido muito bem limpas, por fora e por dentro. "É preciso um homem entrar lá dentro e se tiver muita barriga até pode ter dificuldade em sair", diz, entre risos, António Honrado. Não esquecer que algumas talhas têm perto de dois metros e que cabe lá uma pessoa.

 

São precisas depois umas semanas de fermentação e durante esse período a chamada massa tem de ser mexida duas ou três vezes por dia. Para isso usa-se o rodo, um pau com a ponta em forma de T. Para se evitar que o vinho transborde durante a fermentação, nenhuma talha é cheia logo até ao topo, mas para que não entre ar em demasia o que está em falta será preenchido com líquido tirado de uma talha que serve só para reforço das outras, a chamada trasfega. Para essa tarefa, explica-me com grande paciência António Honrado, usa-se o cace, uma enorme colher em forma de concha. Fico a saber ainda que cada produtor quase tempera o vinho à sua maneira, introduzindo um pouco de engaço, os raminhos do cacho de uvas, "para reforçar o tanino".

 

O processo está quase completo quando, graças à fermentação, a massa desce e o líquido passa para cima na talha, sinal de que pode ser provado da forma mais festiva possível no Dia de São Martinho. É hora de enfiar uma torneira na zona inferior da talha, num buraco que antes estava tapado com cortiça ou madeira. E há quem use umas ervas para fazer de filtro natural. Para evitar a tal oxigenação, há quem deite azeite por cima do vinho para selar a talha, funciona como uma espécie de rolha, não se misturando os dois líquidos.

 

António Honrado, que tem 51 anos, conseguiu que o filho Rúben, que chegou a viver nos Estados Unidos, se juntasse a ele neste projeto de prosseguir a produção de vinho da talha. E toda a parte de marketing é feita pelo Honrado mais novo, que é também o autor do vídeo mostrado aos visitantes do País das Uvas e da sua Cella Vinaria Antiqua.

 

Rui Raposo, que assim que voltamos à rua continua a cumprimentar toda a gente, e sempre acertando com o nome, confirma que há outras famílias que sempre fizeram o vinho da talha para consumo próprio ou para oferecer aos amigos e que agora começam, tal como os Honrado, a pensar em fazer mesmo negócio, num misto de apego à tradição e de espírito empresarial. E entusiasmado diz-me que tenho de conhecer o professor Arlindo, "uma figura muito querida cá da terra e homem que sabe tudo sobre o vinho da talha".

 

 

Um vinho chamado Farrapo

Pausa para um telefonema. Mas antes mais um aperto de mão. O presidente da Câmara da Vidigueira confirma que Arlindo Ruivo e a neta, Teresa Caeiro, já estão à espera na adega familiar que serve de base ao projeto Gerações da Talha. A partir de meados de fevereiro contam vender engarrafado o seu Farrapo, nome que está ligado a esta terra, mas deixemos para mais tarde a explicação. É que Teresa Caeiro, de 24 anos, nos abre as portas e logo nos mostra uma mesa com toalha aos quadradinhos vermelhos e brancos em cima da qual, além dos tradicionais jarros de barro, estão três garrafas da nova marca Farrapo, uma de tinto, outra de branco e, sublinha o professor Arlindo entre risos misteriosos, "o petroleiro".

 

 

Teresa Caeiro

 Arlindo Ruivo e a neta Teresa Caeiro na adega familiar. Na mão dele a broca, na dela a torneira para põr na talha

 

De riso fácil como o avô, Teresa Caeiro acrescenta que a meio do inverno "este vinho destinado a engarrafamento foi todo retirado da talha e está pronto para a garrafa. E com estas condições de baixa temperatura e sem luminosidade estagia muito bem na garrafa".

 

Arlindo Ruivo, que está quase nos 80 anos, conta a meu pedido um pouco da sua história de vida, até porque sei que é de fora e de início nada tinha que ver com o vinho da talha. "Cheguei aqui mais novo do que ela é agora. Tinha os meus 21 anos. Vim de Coimbra, embora a minha terra seja Abrantes, e vim aqui cair e daqui não saí até hoje. Trabalhei sempre na Vidigueira, no concelho, mas nunca estive ligado ao mundo da vinha nem ao mundo agrícola. A minha vida foram sempre as pedagogias e as didáticas. Fui professor na Vidigueira e em Vila de Frades", relata.

 

"O que aconteceu foi que há cerca de 30 anos, de forma intempestiva, um pai faltou-nos. O meu sogro. Eu tinha os filhos bastante pequenos e, com a minha Domingas, tomámos a decisão de pegar no negócio do vinho da talha. Em conselho familiar decidimos ir a isto e eu tomei a decisão de pegar na casa, em 1991. Em 1992 aposentei-me de professor", acrescenta.

 

Acabo por perceber que mesmo quando dava aulas, o professor Arlindo ia aprendendo sobre o vinho da talha. "A vida é sempre a aprender. Olhe, vou contar-lhe uma história, se tiver uns minutos". E, com a neta e o presidente da câmara ao meu lado a rirem, digo que com certeza, estamos aqui para ouvir.

 

"Tive a felicidade de ter um mestre que em vinhos e vinhas considero um expert. Francisco Nogueira Anacleto - o meu sogro. Um grande autodidata no mundo dos vinhos e vinhas. E a casa agrícola tinha Beja como grande consumidor dos nossos produtos. Vendia-se vinho em pipas marcadas FNA. Um dia, está ele já muito doente, substituo-o numa volta. Diz-me que não vale a pena ir a certo sítio na cidade porque o homem deixou de nos comprar. Houve um berbicacho qualquer, já não me recordo qual. Mas insisti e ouvi um ou dois nãos. Eu sabia que o homem tinha uma grande paixão por canários e engendrei um plano. Li tudo o que apanhei sobre os passarinhos e passados 15 dias voltei a passar na loja em Beja. Assim que me viu, gritou logo que não queria comprar nada. Disse-lhe que vinha por outra razão. Que andava a tentar perceber um mal que afetava os canários, os meus. Mudou logo de atitude. Estivemos para ali a falar, a trocar informações sobre canários, até que me despedi. De repente, chama-me. Finjo ignorar. Mas ele insiste. Traga 1200 litros de vinho, diz. Ficou de uma fidelidade depois disso", e agora ri a bom rir. Tento perceber as gerações deste Gerações da Talha. Falta uma ali, José e Graça Caeiro. É Teresa Caeiro que explica: "Quando veio a grande crise, os meus pais tiveram uma oportunidade de trabalho em Angola. São os dois aqui de Vila de Frades. Eu fiz lá, em Quibala, no Cuanza Sul, o 8.º, o 9.º e o 10.º anos e foi uma grande experiência de vida." O avô interrompe e acrescenta: "Mas fui buscá-la para continuar os estudos em Portugal. E tirou o curso no Técnico, em Lisboa, Engenharia de Geologia e Minas. Depois fez o estágio em Angola, na Diamang, mas quando pensei que ela ia dedicar-se a ganhar dinheiro, tivemo-la de volta. É muito ligada à terra. Trocou os diamantes pelo vinho da talha." Nova sessão de risos, depois de Rui Raposo, até então muito concentrado a ouvir, lançar que "trocou os diamantes por outro diamante" e Teresa Caeiro dizer que "sim, sim".

 

Vila de frades

 

Fico a saber que ainda há uns 20 anos, numa contagem feita então, havia 154 adegas em Vila de Frades. Não eram negócio, faziam vinho para a família e para os amigos. Depois a tradição pareceu fraquejar, até por fim dar-se um revivalismo. Os mais jovens perceberam que a sua identidade vinha das talhas. "O vinho da talha corre nas veias", reivindica Teresa Caeiro, um exemplo de como a juventude local até percebeu o valor económico que está ligado à tradição.

 

Mais do que bebida, identidade

"Para esta gente, o vinho é mais do que uma bebida, é identidade, é cultura. Um património. Aqui bebe-se vinho da talha e mesmo longe sabem disso. O meu sogro dizia que Vila de Frades no inverno mete mais gente do que a praia de Sines em agosto. Se quero comer uns percebes frescos, vou lá, mas eles se querem bom vinho vêm aqui. Bebe-se enquanto se petisca uma fatia de marmelo, de maçã, de queijo. Para o bem e para o mal, o vinho da talha será sempre em pouca quantidade. Não tem escala nem é possível. Custos de produção decuplicam em relação a outros vinhos. Hoje não há cão nem gato no Alentejo que não queira fazer vinho de talha e ainda bem, se respeitarem a tradição. Esta é muito forte também aqui perto, em Vila Alva, no concelho de Cuba. É toda esta zona minifundiária: metade da freguesia de Vidigueira, Vila de Frades e Vila Alva, que quando Vila de Frades foi sede de concelho pertencia aqui", conta o professor Arlindo. Fico a saber também que Vila de Frades se deslocou da periferia de Cucufate e quando nos primeiros séculos da nacionalidade os frades receberam foral, trouxeram colonos do Minho. Tornou-se zona minifundiária porque os religiosos cediam pequenas porções de terra para os camponeses produzirem o vinho de missa. O sangue de Cristo. E é essa a origem do chamado petroleiro, cor de petróleo. Vinhas livres de impostos, cujo único ónus para os proprietários era fornecer vinho à igreja, respeitando um encepamento estratégico, quatro cepas de uva branca para uma de tinta. Para, na talha, na mesma proporção, se tentar o tal rosé natural, uvas misturadas.

 

Acrescenta o professor Arlindo a importância também das castas, "de modo geral altamente adaptadas a esta região. Antão Vaz, que muitos chamam de casta da Vidigueira, Roupeiro e Perrum. Dão-se muito bem no nosso terroir. Nesta região, uma faixa de largura entre seis e oito quilómetros, na base da serra do Mendro, que se estende de nascente para poente. Por isso temos esta preciosidade. Proteção eólica, proteção em relação aos ventos norte. Também influência dos ventos marítimos que sobem o Guadiana. Queda pluviométrica de 600 milímetros, em Beja é 400. E a mão do homem e da mulher".

 

Se o avô explica o terroir, as características da terra cultivada, a neta, que fez uma pós-graduação em Enologia na Universidade de Évora, explica o fazer do vinho da talha: "Temos as nossas vinhas, trazemos as uvas e fazemos tudo aqui. As uvas são desengaçadas. Extraídos os bagos, separados da parte de lenho. Depois as uvas são ligeiramente rebentadas, rachadas, e vão para a talha ainda com grainhas e são colocados pedaços do engaço. Durante a fermentação, que é a transformação dos açúcares em álcool, há produção de dióxido de carbono, e é esse gás carbónico que, ao ser libertado, faz as grainhas e outros pedaços virem à superfície, formando a manta, toda a parte sólida. Usamos estes rodos para mexer, fazer a remontagem. Empurramos a parte sólida para baixo, para a talha não rachar. Quando deixa de haver esta produção, as películas caem e formam a mãe, que fica na metade de baixo. Uma talha vai servindo entretanto de reforço às outras. Uma talha nunca é logo cheia. Fica sempre a faltar um braço. Há uma que serve de atesto. Enche-se completamente no fim para haver menor contacto com oxigénio, por isso a talha aperta no topo."

 

O avô pega agora na palavra: "No Dia de São Martinho a mãe está toda em baixo. É quando se broca o batoque e se põe uma torneira. Sai um líquido que enche o alguidar e volta a deitar-se na talha. Já se bebe mas é só em dezembro que sai límpido. E o vinho da talha branco às vezes nem se percebe se é branco ou tinto. Aqui a diferença é só na cor, não se diferencia com o processo industrial como o outro vinho." Volta a neta a falar: "Sirvo o vinho a 18 graus, a temperatura ideal. É a temperatura a que sai da talha." Intervém o avô: "Nesta casa, nesta adega, no verão, na hora de maior calor, aqui tem de se pôr um casaquinho nas costas. Mas aconchega no inverno. Deve-se à grossura das paredes, também à conceção arquitetónica." De novo a neta: "E no chão temos a dorna ou ladrão. Para quando a talha rachava se recuperar parte. Para mim seria impensável fazer isso hoje, mas os antigos dizem que vai ainda fermentar, e que a natureza tratava das impurezas." Avô: "O engaço é para dar tanino."

 

A primeira produção em garrafas do Farrapo será de 4500, cada uma a uns 15 euros. O professor Arlindo recomenda e diz que "com um bocadinho de presunto ou de queijo cai que nem ginjas". Por sugestão de um português que tem um restaurante na Coreia do Sul, enviaram vinho para um concurso em Seul e foram premiados. "O mundo do vinho é a bacia do Mediterrâneo. Mas como não o conseguimos beber todo, sempre dá para exportar", diz, entre risos, o antigo professor da primária, farrapeiro adotivo. Farrapeiro? "É como nos chamamos aqui em Vila de Frades. Como os monges faziam voto de pobreza e vestiam farrapos ficou a expressão. E temos muito orgulho em ser farrapeiros, mas se for alguém de fora da terra a dizer já pode ser visto como um insulto", explica Teresa Caeiro. Está explicada, pois, a marca Farrapo nas garrafas.

 

"Agora sou também farrapeiro", diz, entre risos, Rui Raposo. "Nasci em Évora, cresci na Vidigueira, estudei em Beja [Engenharia do Ambiente], casei com uma farrapeira, fui pai e agora vivemos aqui", conta, enquanto nos despedimos de avô e neta, desejando-lhes boa sorte para a aventura Gerações da Talha. De acrescentar que tivemos oportunidade de provar as três variedades de Farrapo. "Vai um copinho?"

 

Museu Rui Raposo junto ao futuro centro interpretativo do vinho da talha. 

 

Já está noite e voltamos ao País das Uvas para uma conversa final. Cruzamo-nos como José António Falcão e Sara Fonseca, os responsáveis pelo Terras sem Sombra. Falamos um pouco sobre o tema da reportagem e José António Falcão, historiador, recorda que no ano passado uma das atividades do festival foi o vinho da talha, como em 2018 tinha sido o pão da Vidigueira. Neste ano o destaque coube à laranja da Vidigueira.

 

Na conversa final com o autarca, que tem à espera Ana Isabel e a pequena Francisca, peço um comentário sobre as suas expectativas sobre o sucesso da candidatura à UNESCO. Começa por relembrar que, seja como for, o vinho da talha está de regresso e em força. O centro interpretativo está quase a abrir, e será tanto museu como adega, para se aprender (com um boneco inspirado no professor Arlindo) e conviver, e que agora até voltaram a fazer talhas no concelho, pelas mãos de António Rocha, que tem oficina na Vidigueira. E a bem-sucedida Adega Cooperativa da Vidigueira, produtora de conceituados vinhos, também se dedica ao vinho da talha.

 

"O vinho da talha na Vidigueira assume uma preponderância especial, dado existir continuidade produtiva deste vinho, desde a época romana. As condições edafoclimáticas próprias dos territórios de Vidigueira, combinadas com os elementos culturais e tecnológicos que lhe estão associados, fazem deste legado uma singular simbiose entre terroir, condições climáticas, diversidade de castas e património enológico, conferindo-lhe um valor universal excecional e único", diz o presidente da câmara. Despedimo-nos e Rui Raposo acelera o passo para casa. Mas primeiro, mais um cumprimento. "Boa noite D. Gertrudes, como está?"

 

 

 

Um artigo de Leonidio Paulo Ferreira

 

Para consultar o artigo original visite o Diario de Noticias online 

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